Em resumo: um plano de conservação preventiva não é uma lista de equipamentos. É um projeto, com objetivos, análise das condições de partida, avaliação das capacidades da instituição, processos definidos, execução e controlo. O método LIDAR organiza esse projeto em cinco etapas encadeadas: Levantamento, Interpretação, Definição, Aplicação e Revisão. Assenta em três princípios: rigor, reprodutibilidade e rastreabilidade. Data loggers, desumidificadores e vitrinas são ferramentas. O plano é o que liga os dados às decisões, com tarefas, prazos, responsáveis e indicadores.
O que é a conservação preventiva?
É a área da conservação e restauro que atua de forma indireta. Não trata os objetos: age sobre os fatores externos que podem provocar a sua alteração, sem mudar nenhum aspeto material ou estético dos bens culturais. Estes fatores vão do ambiente e da luz aos poluentes, às pragas, ao manuseamento, ao transporte e às situações de emergência. Por isso é a área mais proativa da conservação: antecipa-se à deterioração em vez de reagir a ela. Em termos simples, são medidas e ações destinadas a evitar e minimizar a deterioração futura.
Isto tem duas consequências práticas. A primeira é que se trabalha sobre a coleção inteira, e não sobre uma peça de cada vez. A segunda é que a conservação preventiva não trava o tempo, porque todos os materiais acabam por se alterar. O que faz é atrasar essa alteração e manter as características originais dos bens durante o máximo de tempo possível, com o mínimo de impacto.
Porque é que equipamento não é um plano?
Em muitos museus, “conservação preventiva” quer dizer despejar a água dos desumidificadores, descarregar um data logger de vez em quando ou manter um termohigrógrafo que roda indefinidamente sobre a mesma folha. Estas tarefas têm valor. Sozinhas, porém, são tarefas avulsas, não um plano.
A investigação que deu origem ao LIDAR resume a diferença numa frase: “um plano pressupõe um projeto”. Esse projeto tem seis elementos: objetivos, análise de condições prévias, avaliação de capacidades, definição de processos, execução dos processos e sistemas de controlo dos processos. Sem eles, a monitorização da temperatura e da humidade relativa e a contratação de segurança passam por ser o essencial, e os restantes riscos ficam por tratar.
O que é o método LIDAR?
O LIDAR foi desenvolvido no âmbito de um projeto de investigação do CIEBA (Centro de Investigação e Estudos em Belas-Artes da Universidade de Lisboa). Aplica à conservação preventiva metodologias de gestão de projeto, num processo “end-to-end”, rastreável do início ao fim. Nasceu dos desafios da arte contemporânea, mas foi pensado para qualquer tipologia de bens culturais e qualquer instituição. O modelo quer-se mutável (adapta-se a cada coleção), comparável (os critérios reproduzem-se noutros contextos) e executável (ajusta-se aos recursos disponíveis).
Tem três princípios, os 3 R’s:
- Rigor: pesquisa aprofundada, informação sempre atualizada e cumprimento das metodologias e dos prazos definidos.
- Reprodutibilidade: procedimentos padronizados, que outros profissionais possam replicar e comparar na reserva, na exposição ou num empréstimo.
- Rastreabilidade: dados acessíveis, com origem conhecida e partilháveis com quem intervém na vida da coleção.
Como fazer o plano, passo a passo?
1. Levantamento: o que precisa de saber antes de decidir?
O Levantamento começa pela definição de objetivos: institucionais, de conservação, do plano e da própria etapa. Segue-se o planeamento, que quantifica e distribui os recursos humanos, financeiros e técnicos e define as tarefas. Só depois vem a recolha de dados, em três frentes:
- Condições de gestão: tutela, políticas, procedimentos e equipa.
- Condições ambientais: clima da região, edifício, temperatura e humidade relativa, luz e UV, poluentes, canalizações.
- Condições dos objetos: inventariação, estado de conservação e microambiente, incluindo os materiais em contacto com as peças.
Os dados podem ser qualitativos e quantitativos, recolhidos de forma permanente ou pontual. Há duas regras. Recolha apenas o que vai conseguir analisar e documente tudo meticulosamente. Se esta etapa falhar, todas as seguintes ficam condicionadas.
2. Interpretação: como transformar dados em decisões fundamentadas?
É a etapa que mais vezes se salta, quando se passa dos dados diretamente às tarefas. No LIDAR, os dados organizam-se em quatro grupos: quantitativos, qualitativos, temporais e espaciais. Depois são filtrados e priorizados, para que o volume não paralise a decisão.
Para hierarquizar os riscos, pode usar-se uma classificação com quatro dimensões:
- o tipo de risco (raro, esporádico ou contínuo);
- o agente de deterioração, por exemplo segundo os agentes definidos pelo Canadian Conservation Institute (forças físicas, criminosos, fogo, água, pragas, poluentes, luz e UV, temperatura incorreta, humidade relativa incorreta e dissociação);
- o impacto potencial (baixo, médio ou alto);
- a reversibilidade do dano.
O resultado é uma síntese estruturada que sustenta a etapa seguinte.
3. Definição: o que deve conter o plano?
Nesta etapa definem-se as estratégias que mitigam os riscos identificados, o cronograma e os critérios de manuseamento, acondicionamento, transporte, estudo e exposição. O LIDAR organiza-a em cinco componentes, verdadeiros “planos dentro do plano”:
- Controlo ambiental e monitorização integrada: parâmetros e limites, equipamentos e calibração, protocolos de monitorização, análise de dados e cenários de resposta.
- Manuseamento, acondicionamento, exposição e transporte, incluindo empréstimos.
- Manutenção regular: cronograma, protocolos de inspeção e de limpeza.
- Formação e sensibilização, da equipa e dos públicos.
- Ação em emergência e catástrofe: cadeia de comando, prioridades de salvaguarda e comunicação de crise.
Cada tarefa precisa de cadência, prazo e responsável. A cadência pode ser recorrente (descarregar data loggers), sazonal (limpar caleiras no início do outono) ou esporádica (transportar uma obra). Seja realista: um plano modesto que se cumpre vale mais do que um plano cheio de tecnologia que a instituição não consegue aplicar.
4. Aplicação: como pôr o plano em prática?
É a fase mais longa e, na prática, contínua. Consiste em executar o que foi definido, segundo o cronograma, através de duas ações complementares:
- Monitorização: observação contínua e sistemática, baseada em dados e não invasiva.
- Controlo: ação proativa, baseada no risco e adaptável, para corrigir as condições.
Os dados recolhidos são mapeados, analisados, integrados nos processos e transmitidos à equipa através de formação. Pequenos ajustes de parâmetros ficam registados no plano.
5. Revisão: como saber se o plano está a funcionar?
A Revisão funciona como uma auditoria interna do plano. É ativada nos marcos previstos na Definição e sempre que algo muda na vida da coleção, seja a saída de peças para uma exposição ou uma infiltração de chuva. Segue sempre a mesma sequência: recolha de dados, análise e interpretação, e por fim recomendações e alterações. Estas tarefas organizam-se em quatro blocos: análise preliminar, avaliação da eficácia, identificação de pontos críticos, e atualização e adaptação.
Para avaliar a eficácia, o método propõe indicadores de desempenho: a taxa de sucesso das intervenções preventivas, a eficiência dos protocolos implementados e o índice de deterioração dos acervos, a par da relação custo-benefício. As conclusões podem alterar objetivos, tarefas ou condições em qualquer etapa, e o ciclo recomeça.
Quais são os erros mais comuns?
- Confundir equipamento com plano.
- Saltar a interpretação.
- Recolher mais dados do que se consegue analisar.
- Reduzir tudo à temperatura e à humidade relativa.
- Não fixar prazos nem responsáveis.
- Nunca rever o plano.
Quando faz sentido pedir apoio externo?
Muitos museus não têm técnicos de conservação e restauro nos seus quadros. O apoio externo é especialmente útil para estruturar o primeiro plano, antes de obras, de uma mudança de reservas ou de uma reabertura, ou quando há danos recorrentes.
A Antever aplica o método LIDAR em quatro áreas: diagnóstico e avaliação de risco, plano de conservação preventiva, implementação e monitorização, e acompanhamento de obras, reservas e reaberturas.
Perguntas frequentes
Um museu pequeno também precisa de um plano?
Sim. O LIDAR foi pensado para ser executável com poucos recursos, porque o plano adapta-se à escala da instituição. Poucas prioridades claras, com responsáveis definidos, valem mais do que um documento extenso.
Qual é a diferença entre conservação preventiva e conservação curativa?
A conservação preventiva é uma intervenção indireta: atua sobre os fatores externos que provocam a alteração da coleção, sem tocar nos objetos. A conservação curativa e o restauro intervêm diretamente sobre uma peça de cada vez e implicam quase sempre acrescentar materiais.
Ter data loggers significa que o museu tem um plano?
Não. Os data loggers recolhem dados, e o plano define o que fazer com eles: parâmetros, responsáveis pela análise, cadência e ações para cada desvio. Sem isso, os registos têm pouco efeito na proteção das coleções.
Uma avaliação de risco é o mesmo que um plano?
Não. A avaliação de risco ajuda a hierarquizar ameaças e a tomar decisões, mas não define tarefas, prazos nem responsáveis. No LIDAR, os modelos de gestão de risco apoiam a Interpretação e, sobretudo, a Revisão. Não são a estrutura do plano.
Quando se deve rever o plano?
Nos marcos definidos no próprio plano e sempre que um acontecimento obrigue a repensar a estratégia, como a deslocação de peças para uma exposição ou investigação, ou uma infiltração de chuva no edifício.
Por onde começar?
O primeiro passo é saber onde está. Um diagnóstico inicial mostra os principais riscos e as prioridades de atuação, e serve de base a qualquer decisão de investimento. Se quiser falar sobre o caso do seu museu, arquivo ou biblioteca, contacte a Antever através de antever@antever.pt.