Em resumo: a luz é um dos agentes de deterioração dos bens culturais e o seu efeito é cumulativo. Mas as peças existem para ser vistas, e a reserva não pode ser a solução permanente. Proteger sem esconder significa gerir a exposição à luz com critério. É preciso distinguir a luz elétrica, controlável, da luz solar, variável ao longo do dia e do ano. Depois, monitorizam-se as componentes visível, ultravioleta e infravermelha. No plano de conservação preventiva, isto traduz-se em parâmetros definidos para a coleção, num protocolo expositivo e num eventual plano de rotação entre reserva e exposição.
Porque é que a luz danifica as peças?
Na lista de agentes de deterioração caracterizada pelo Canadian Conservation Institute (CCI), a luz (visível, ultravioleta e infravermelha) é um dos dez agentes. No quadro de riscos de Robert Waller, os exemplos associados são o desvanecimento das cores e os danos estruturais. Veja os 10 agentes de deterioração e como identificar os riscos de uma coleção.
A característica decisiva é que a deterioração causada pelas componentes lumínicas é cumulativa. Cada período de exposição soma-se aos anteriores. Por isso, a gestão da luz não se resume a um momento, como a montagem de uma exposição. Acompanha a vida das peças.
Que materiais são mais sensíveis?
A sensibilidade depende dos materiais e deve ser avaliada caso a caso. Nas coleções de arte contemporânea, por exemplo, os materiais poliméricos (plásticos, borrachas, resinas sintéticas) podem amarelecer e sofrer deterioração química sob radiação UV. Entre as estratégias comuns estão a proteção contra essa radiação e, em certos casos, ambientes anóxicos. Os materiais compósitos podem também deteriorar-se quimicamente por exposição ao UV.
Como mostrar a coleção sem a pôr em risco?
A reserva tem uma vantagem clara: reduz significativamente a acumulação de deterioração causada pela luz. Mas não é possível manter indefinidamente os bens culturais longe do olhar humano, porque o objetivo da sua preservação é justamente a fruição. O equilíbrio não está em escolher entre mostrar e proteger, mas em planear quando, como e durante quanto tempo cada peça é exposta.
Que diferença faz a fonte de luz?
Há dois tipos de fontes de iluminação, geridos de formas bastante diferentes:
- Iluminação elétrica: tem características controladas e está associada a uma função definida para cada espaço. Por isso, é mais fácil controlar a intensidade luminosa, a capacidade calorífica e a radiação ultravioleta.
- Iluminação solar: é dinâmica, variando sazonal e diariamente nas suas três componentes que interferem com a deterioração, a visível, a ultravioleta e a infravermelha.
A evolução das caixilharias e dos sistemas domóticos tornou mais fácil monitorizar e controlar a quantidade de luz natural que entra por um vão e chega a um objeto. Estores, persianas e cortinas são sistemas de controlo ativo. Os vãos de vidro fazem parte do controlo passivo do próprio edifício.
Como gerir a luz numa exposição, passo a passo?
Levantamento: o que medir?
Os níveis de radiação luminosa e de ultravioleta fazem parte dos dados quantitativos a recolher, a par da termohigrometria, dos poluentes e das vibrações. Junta-se a caracterização dos espaços, dos vãos e da sua orientação, a política de iluminação da instituição e os materiais das peças a expor. As estatísticas de visitas e frequências também são dados úteis, porque ajudam a perceber os períodos de utilização dos espaços.
Interpretação: que peças correm mais risco?
Cruzam-se os dados de luz com os materiais e o estado de conservação de cada peça. Os dados temporais mostram as tendências sazonais da luz natural ao longo do ano. Os dados espaciais mostram as zonas de risco e a relação entre cada objeto e o seu ambiente imediato. A classificação dos riscos por tipo, impacto potencial e reversibilidade ajuda a decidir que peças exigem condições mais restritivas.
Definição: o que deve ficar escrito no plano?
A luz aparece em duas componentes do plano:
- Controlo ambiental e monitorização integrada: os parâmetros e limites de radiação visível e ultravioleta definidos para a instituição ou coleção, os equipamentos e a sua calibração, os protocolos e a frequência de monitorização e os cenários de resposta.
- Manuseamento, acondicionamento, exposição e transporte, através de dois instrumentos:
- um protocolo expositivo, incisivo sobre as condições ambientais a que as peças podem estar sujeitas em exposição. Inclui os procedimentos de de-reservar e re-reservar, as especificações de suportes e vitrinas, os materiais em contacto com a obra, a monitorização durante a exposição e a limpeza e manutenção durante esse período;
- um eventual plano de rotação das obras em reserva ou entre a reserva e a exposição.
A rotação é a resposta mais direta ao dilema entre mostrar e proteger. Permite que a coleção seja vista sem que as mesmas peças acumulem exposição contínua.
Os limites concretos devem resultar da avaliação da coleção e ficar registados no plano. Não devem ser copiados de outro contexto, tal como acontece com a temperatura e a humidade relativa (veja como definir parâmetros para uma reserva).
Aplicação: como controlar na prática?
Os sistemas de monitorização atuais cobrem as radiações visível e UV, a par das variáveis termohigrométricas. Podem emitir alarmes quando as condições saem dos padrões definidos e ser integrados com os sistemas de iluminação. Os dados de exposição só são úteis se forem analisados: veja como transformar registos em decisões.
A observação regular das peças completa os dados dos sensores. Sinais de alteração, como mudanças de cor, devem ser registados e mapeados.
Revisão: quando ajustar?
Sempre que a monitorização ou a observação mostrem alterações nas peças, quando muda a exposição ou a utilização de um espaço, e nos marcos definidos no plano. Os indicadores de desempenho, como o índice de deterioração dos acervos, ajudam a avaliar se a política de iluminação e de rotação está a funcionar.
Que erros são frequentes?
- Pensar só na montagem, esquecendo que o dano é cumulativo.
- Tratar a luz natural como a elétrica, ignorando as suas variações diárias e sazonais.
- Esquecer as componentes ultravioleta e infravermelha.
- Não ter protocolo expositivo nem plano de rotação.
- Medir sem registar a evolução das peças.
- Fechar tudo na reserva, contrariando a função de fruição da coleção.
Perguntas frequentes
Qual é o nível de luz recomendado para uma exposição?
Não existe um valor único a aplicar a todas as peças. Os limites devem ser definidos para a instituição ou coleção, em função da sensibilidade dos materiais e do estado de conservação, e registados no plano de controlo ambiental.
O dano causado pela luz é cumulativo?
Sim. A deterioração causada pelas componentes lumínicas acumula-se ao longo do tempo. Por isso, não conta apenas a intensidade: a duração e a frequência da exposição também pesam.
A luz natural pode ser usada num museu?
Pode, desde que seja monitorizada e controlada. É mais difícil de gerir do que a luz elétrica, porque varia ao longo do dia e do ano. Caixilharias adequadas, estores, persianas e sistemas domóticos facilitam esse controlo.
Guardar as peças na reserva resolve o problema?
Reduz a acumulação de dano, mas a coleção existe para ser vista. A solução está num protocolo expositivo e, quando necessário, num plano de rotação entre reserva e exposição.
O que deve medir-se além da luz visível?
A radiação ultravioleta e, no caso da luz solar, também a infravermelha. Na luz elétrica, controla-se ainda a capacidade calorífica das fontes.
Por onde começar?
Começa-se por perceber que peças são sensíveis, onde estão expostas e a que luz. O método LIDAR, desenvolvido no âmbito de um projeto de investigação do CIEBA (Universidade de Lisboa), integra a luz no controlo ambiental e no protocolo expositivo, da medição à revisão. Este guia explica como estruturar o plano completo. Para avaliar a iluminação de uma exposição ou coleção, contacte a Antever através de antever@antever.pt.