Como organizar uma reserva de museu

Em resumo: organizar uma reserva de museu não é apenas arrumar estantes. Em primeiro lugar, é saber que peças existem, onde estão e em que estado se encontram. Depois, é garantir que cada peça tem acondicionamento, materiais e condições adequados. Além disso, é controlar a forma como as peças se movem. No plano de conservação preventiva, isto traduz-se num protocolo de acondicionamento, em procedimentos de manuseamento, num cronograma de inspeção e numa revisão regular.

Porque é que uma reserva precisa de um plano?

A reserva oferece condições mais controladas do que a exposição. Por exemplo, reduz muito a acumulação de danos causados pela luz.

No entanto, a reserva também tem riscos próprios. O quadro de riscos de Robert Waller dá vários exemplos:

  • deformação causada por um suporte inadequado;
  • gases e vapores libertados pelo mobiliário de reserva;
  • perda de peças ou dos dados que lhes estão associados.

Este último risco chama-se dissociação. Trata-se de um fator crítico, mas que é possível mitigar com boas práticas de conservação preventiva. Veja os 10 agentes de deterioração e como identificar os riscos de uma coleção.

Por isso, organizar uma reserva de museu exige método. Não basta ter espaço e estantes.

Como organizar uma reserva de museu, passo a passo?

Levantamento: o que é preciso saber primeiro?

O ponto de partida é o conhecimento da coleção. Assim, o levantamento reúne três tipos de informação:

  • Inventário e localização: que peças existem e onde está cada uma.
  • Estado de conservação: em que condição se encontra cada peça.
  • Envolvente: os materiais em contacto com as peças, o mobiliário, o espaço, as canalizações e as condições termohigrométricas.

Como avaliar o estado de conservação de muitas peças?

Aqui ajuda uma analogia. O conservador-restaurador funciona como um cirurgião: antes de intervir numa peça, faz um diagnóstico tão profundo quanto possível. Já o conservador preventivo funciona como um clínico geral. Vê muitos “doentes” em consultas de rotina e procura alterações que sugiram um problema.

Por outras palavras, numa reserva não é preciso um diagnóstico profundo de cada peça. Em vez disso, é preciso um padrão que permita avaliar a condição de forma expedita.

Uma escala com parâmetros claros torna o processo sistemático. Por exemplo, Camacho (2007) sugere cinco níveis qualitativos: “Muito Bom”, “Bom”, “Regular”, “Deficiente” e “Mau”. Estes níveis vêm das Normas Gerais de Inventário (Pinho & Freitas, 2000). Além disso, uma escala numérica bem referenciada facilita o tratamento dos dados.

Interpretação: como agrupar as peças?

Depois do levantamento, os dados são organizados. Neste ponto, os dados espaciais são essenciais:

  • a localização e a distribuição dos objetos;
  • o seu trânsito dentro da instituição;
  • a caracterização dos layouts;
  • o mapeamento de zonas de risco.

Em seguida, as peças podem ser agrupadas por necessidades de conservação semelhantes. Para isso, cruza-se a classificação dos riscos com uma matriz de características e necessidades dos materiais. Deste modo, percebe-se que grupos podem partilhar o mesmo espaço e que peças exigem microclimas.

Também é útil classificar a prioridade de cada bem. Os critérios podem ser o estado de conservação, a materialidade ou a importância na coleção.

Definição: o que deve ficar escrito no plano?

Protocolo de acondicionamento

Este é o documento central para organizar uma reserva de museu. Deve especificar:

  • os materiais de embalagem e acondicionamento, desde papéis e cartões acid free aos tipos de embalagem;
  • a etiquetagem;
  • o mobiliário;
  • a movimentação em reserva;
  • as condições ambientais e de embalagem específicas para peças mais sensíveis, como microclimas;
  • um eventual plano de rotação das peças em reserva, ou entre a reserva e a exposição.

Materiais permitidos, proibidos e em observação

Os materiais das peças interagem entre si. Além disso, os materiais da própria reserva podem libertar poluentes. Por isso, a estratégia deve definir que materiais podem ser usados, quais são proibidos e quais ficam em observação, como sugere Tétreault (1994).

Procedimentos de manuseamento

O manuseamento não se resume a usar luvas de vez em quando. Pelo contrário, o plano deve incluir:

  • instruções de manuseamento por peça ou, pelo menos, por conjunto ou tipologia;
  • os equipamentos a usar, como luvas, batas ou máscaras;
  • protocolos para mover peças de grande dimensão ou peso;
  • técnicas seguras de manipulação, incluindo o posicionamento das mãos e o uso de suportes.

Prioridades em emergência

A organização da reserva também prepara a resposta a uma emergência. Assim, a matriz de prioridades, as instruções de remoção e as rotas de evacuação devem estar alinhadas com a disposição das peças. Veja como preparar a ação em emergência e catástrofe.

Aplicação: como manter a reserva organizada?

Uma reserva organizada só se mantém com rotinas. Por isso, o plano define tarefas com cadências diferentes:

  • Recorrentes: por exemplo, a descarga semanal de data loggers ou a mudança de água dos desumidificadores.
  • De inspeção: desde a observação diária ou semanal dos pontos críticos até verificações sazonais.
  • Sazonais: por exemplo, a avaliação dos dados de uma temporada.

Além disso, as condições ambientais precisam de limites definidos para a coleção. Veja que temperatura e humidade relativa definir para uma reserva. As peças que entram exigem quarentena e inspeção à chegada. Veja como prevenir e detetar pragas.

Por fim, a saída de uma peça para exposição exige aclimatação. É o que se chama de-reservar. O regresso à reserva chama-se re-reservar.

Revisão: quando reorganizar?

A Revisão acontece nos marcos definidos no plano. Também acontece sempre que um acontecimento obrigue a repensar a estratégia. Por exemplo, a deslocação de peças para uma exposição ou uma infiltração de água na reserva.

Uma mudança de reserva é um caso evidente. Veja como proteger uma coleção durante obras e mudanças de reserva.

Que erros são frequentes?

  • Arrumar sem inventário nem registo de localização.
  • Usar materiais de acondicionamento sem critério.
  • Juntar peças com necessidades diferentes no mesmo espaço.
  • Mover peças sem procedimentos definidos.
  • Não ter cronograma de inspeção.
  • Esquecer a reserva no plano de emergência.

Perguntas frequentes

Por onde começar a organizar uma reserva de museu?

Pelo inventário, pela localização e pelo estado de conservação das peças. Sem esta base, qualquer reorganização arrisca a dissociação.

Como avaliar rapidamente o estado de conservação de muitas peças?

Com uma escala padronizada e critérios claros para cada nível. Por exemplo, a escala qualitativa de cinco níveis das Normas Gerais de Inventário.

Que materiais se podem usar na reserva?

Os que estiverem definidos no plano como permitidos. A estratégia deve distinguir materiais permitidos, proibidos e em observação.

Todas as peças podem ficar no mesmo espaço?

Nem sempre. Peças com necessidades semelhantes podem ser agrupadas. No entanto, algumas exigem microclimas.

De quanto em quanto tempo se deve inspecionar a reserva?

A periodicidade é definida no cronograma de manutenção. Pode ir da observação diária ou semanal dos pontos críticos a inspeções sazonais.

Por onde começar?

Em suma, organizar uma reserva de museu começa por saber o que existe, onde está e em que estado. O método LIDAR, desenvolvido no âmbito de um projeto de investigação do CIEBA (Universidade de Lisboa), liga esse conhecimento a protocolos, tarefas e revisões. Este guia explica como estruturar o plano completo. Para organizar ou reorganizar uma reserva, contacte a Antever através de antever@antever.pt.