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  • Materiais permitidos, proibidos e em observação: como escolher o que toca nas peças

    Em resumo: os materiais que rodeiam uma peça também podem danificá-la. Isto inclui embalagens, suportes, vitrinas, mobiliário e produtos de limpeza. Por isso, o plano de conservação preventiva deve definir materiais permitidos e proibidos. Além disso, deve prever uma terceira categoria: os materiais em observação. Esta abordagem segue a sugestão de Tétreault (1994). Assim, cada escolha deixa de depender do hábito e passa a ter critério.

    Porque é que os materiais à volta das peças são um risco?

    Em primeiro lugar, os materiais interagem entre si. Por exemplo, um aplique de ferro pode corroer e contaminar o têxtil onde está aplicado. Ou seja, a deterioração de um material pode afetar os materiais adjacentes.

    Em segundo lugar, muitos materiais libertam poluentes. Os poluentes são, provavelmente, o mais crítico dos fatores de deterioração. Ao mesmo tempo, são também o mais negligenciado. Isto acontece por duas razões:

    • o seu efeito nem sempre é identificado de imediato;
    • a sua identificação e quantificação nem sempre são fáceis.

    Por fim, alguns problemas nascem dentro da própria peça. Há incompatibilidades entre materiais da mesma obra quando estão em contacto. Por isso, a escolha dos materiais externos deve ter em conta a composição de cada peça.

    Que exemplos dá o quadro de riscos de Waller?

    O quadro de riscos de Robert Waller inclui os poluentes (então chamados “contaminantes”) como agente de deterioração. Os exemplos mostram como os materiais e produtos do dia a dia podem ser uma fonte de risco:

    • Risco raro: contaminação por um acidente industrial ou de transporte nas proximidades.
    • Risco esporádico: o uso de um produto de limpeza corrosivo ou a poeira gerada por obras.
    • Risco contínuo: gases e vapores libertados pelo mobiliário de reserva.

    Ou seja, o risco contínuo pode vir do próprio equipamento que existe para proteger as peças. Veja os 10 agentes de deterioração e como identificar os riscos de uma coleção.

    Como funcionam os materiais permitidos, proibidos e em observação?

    A estratégia de conservação deve definir três categorias:

    • Permitidos: materiais que podem ser usados.
    • Proibidos: materiais que não devem ser usados.
    • Em observação: materiais que cabem num modelo de observação avaliativa.

    A referência é o trabalho de Tétreault, Display materials: the good, the bad and the ugly (1994). Esta classificação faz parte da estratégia global do plano. Assim, não se limita a uma lista de compras.

    Porque é importante a categoria “em observação”?

    Nem todos os materiais se classificam à partida como bons ou maus. Por isso, a categoria em observação permite usar um material com acompanhamento. Depois, com base nos resultados, esse material pode passar a permitido ou a proibido.

    Como definir materiais permitidos e proibidos, passo a passo?

    Levantamento: que materiais existem hoje?

    O levantamento identifica os materiais em contacto com cada peça. Isto vale tanto para a reserva como para a exposição. Além disso, inclui os materiais de construção e de isolamento do edifício. Também inclui os sistemas de ventilação e de ar condicionado.

    Os dados quantitativos podem incluir a concentração de poluentes atmosféricos. Hoje, os sistemas de monitorização cobrem também a qualidade do ar, incluindo poluentes e partículas.

    Interpretação: que peças estão mais expostas?

    Em seguida, cruzam-se os materiais das peças com os materiais envolventes. Para isso, é útil uma matriz de características e necessidades dos materiais. Deste modo, identificam-se interações e incompatibilidades. Também se percebe que grupos de peças exigem cuidados mais restritivos.

    Definição: onde entram os materiais no plano?

    A escolha de materiais atravessa vários protocolos do plano:

    • Protocolo de acondicionamento: materiais de embalagem e acondicionamento, desde papéis e cartões acid free aos tipos de embalagem, etiquetagem e mobiliário.
    • Protocolo expositivo: suportes expositivos, vitrinas e sistemas de montagem, fixação e sustentação. Neste ponto, a atenção especial vai para os materiais de interface com a obra.
    • Protocolo de transporte: materiais de proteção e amortecimento.
    • Protocolo de empréstimo e aquisição: requisitos específicos de embalagem.
    • Protocolo de limpeza e manutenção: métodos, materiais, produtos e técnicas adequados a cada tipo de peça.

    Em todos estes casos, a lista de materiais permitidos e proibidos funciona como referência comum. Por isso, deve estar escrita e acessível a toda a equipa.

    Aplicação: como garantir que a lista é cumprida?

    Uma lista só funciona se for aplicada. Por isso, três cuidados são essenciais:

    • Formação: quem monta, limpa ou embala deve conhecer a lista.
    • Terceiros: a limpeza feita por terceiros pode tornar-se um risco significativo. Assim, as boas práticas devem estar incorporadas no plano.
    • Monitorização: a qualidade do ar e o estado das peças devem ser acompanhados, sobretudo junto de materiais em observação.

    Durante obras, a poeira e os produtos usados merecem atenção redobrada. Veja como proteger uma coleção durante obras.

    Revisão: quando atualizar a lista?

    A lista deve ser revista nos marcos definidos no plano. Além disso, deve ser revista sempre que surjam sinais de alteração nas peças. A Revisão procura também procedimentos obsoletos ou ineficientes. Nesse caso, encaminha-os para atualização ou substituição. Um material em observação pode, assim, mudar de categoria.

    Que erros são frequentes?

    • Escolher materiais por hábito ou preço, sem critério de conservação.
    • Esquecer o mobiliário e as vitrinas como fonte de poluentes.
    • Ignorar os materiais de interface entre a peça e o suporte.
    • Não definir produtos de limpeza no plano.
    • Não ter uma categoria em observação, forçando decisões sem dados.
    • Não partilhar a lista com quem executa as tarefas.

    Perguntas frequentes

    O que são materiais permitidos, proibidos e em observação?

    São três categorias para classificar os materiais usados junto das peças. Os permitidos podem ser usados. Os proibidos não devem ser usados. Os materiais em observação são usados com acompanhamento e avaliação.

    Quem propôs esta abordagem?

    O método LIDAR segue a sugestão de Tétreault, no texto Display materials: the good, the bad and the ugly (1994).

    Porque são os poluentes tão perigosos?

    São, provavelmente, o fator de deterioração mais crítico. Além disso, são o mais negligenciado, porque o seu efeito nem sempre é imediato e a sua quantificação nem sempre é fácil.

    Onde se aplicam estas regras?

    Na reserva, na exposição, no transporte, nos empréstimos e na limpeza. Ou seja, em tudo o que toca nas peças ou partilha o seu espaço.

    Há uma lista universal de materiais?

    Não existe uma lista única. A lista deve ser definida para cada coleção, em função dos materiais das peças e das condições do espaço.

    Por onde começar?

    Em suma, começa-se por saber que materiais tocam hoje nas peças. O método LIDAR, desenvolvido no âmbito de um projeto de investigação do CIEBA (Universidade de Lisboa), integra os materiais permitidos e proibidos nos protocolos do plano. Veja como organizar uma reserva de museu e como estruturar o plano completo. Para rever os materiais usados numa reserva ou exposição, contacte a Antever através de antever@antever.pt.

  • Luz e radiação UV em exposições: como proteger as peças sem esconder a coleção

    Em resumo: a luz é um dos agentes de deterioração dos bens culturais e o seu efeito é cumulativo. Mas as peças existem para ser vistas, e a reserva não pode ser a solução permanente. Proteger sem esconder significa gerir a exposição à luz com critério. É preciso distinguir a luz elétrica, controlável, da luz solar, variável ao longo do dia e do ano. Depois, monitorizam-se as componentes visível, ultravioleta e infravermelha. No plano de conservação preventiva, isto traduz-se em parâmetros definidos para a coleção, num protocolo expositivo e num eventual plano de rotação entre reserva e exposição.

    Porque é que a luz danifica as peças?

    Na lista de agentes de deterioração caracterizada pelo Canadian Conservation Institute (CCI), a luz (visível, ultravioleta e infravermelha) é um dos dez agentes. No quadro de riscos de Robert Waller, os exemplos associados são o desvanecimento das cores e os danos estruturais. Veja os 10 agentes de deterioração e como identificar os riscos de uma coleção.

    A característica decisiva é que a deterioração causada pelas componentes lumínicas é cumulativa. Cada período de exposição soma-se aos anteriores. Por isso, a gestão da luz não se resume a um momento, como a montagem de uma exposição. Acompanha a vida das peças.

    Que materiais são mais sensíveis?

    A sensibilidade depende dos materiais e deve ser avaliada caso a caso. Nas coleções de arte contemporânea, por exemplo, os materiais poliméricos (plásticos, borrachas, resinas sintéticas) podem amarelecer e sofrer deterioração química sob radiação UV. Entre as estratégias comuns estão a proteção contra essa radiação e, em certos casos, ambientes anóxicos. Os materiais compósitos podem também deteriorar-se quimicamente por exposição ao UV.

    Como mostrar a coleção sem a pôr em risco?

    A reserva tem uma vantagem clara: reduz significativamente a acumulação de deterioração causada pela luz. Mas não é possível manter indefinidamente os bens culturais longe do olhar humano, porque o objetivo da sua preservação é justamente a fruição. O equilíbrio não está em escolher entre mostrar e proteger, mas em planear quando, como e durante quanto tempo cada peça é exposta.

    Que diferença faz a fonte de luz?

    Há dois tipos de fontes de iluminação, geridos de formas bastante diferentes:

    • Iluminação elétrica: tem características controladas e está associada a uma função definida para cada espaço. Por isso, é mais fácil controlar a intensidade luminosa, a capacidade calorífica e a radiação ultravioleta.
    • Iluminação solar: é dinâmica, variando sazonal e diariamente nas suas três componentes que interferem com a deterioração, a visível, a ultravioleta e a infravermelha.

    A evolução das caixilharias e dos sistemas domóticos tornou mais fácil monitorizar e controlar a quantidade de luz natural que entra por um vão e chega a um objeto. Estores, persianas e cortinas são sistemas de controlo ativo. Os vãos de vidro fazem parte do controlo passivo do próprio edifício.

    Como gerir a luz numa exposição, passo a passo?

    Levantamento: o que medir?

    Os níveis de radiação luminosa e de ultravioleta fazem parte dos dados quantitativos a recolher, a par da termohigrometria, dos poluentes e das vibrações. Junta-se a caracterização dos espaços, dos vãos e da sua orientação, a política de iluminação da instituição e os materiais das peças a expor. As estatísticas de visitas e frequências também são dados úteis, porque ajudam a perceber os períodos de utilização dos espaços.

    Interpretação: que peças correm mais risco?

    Cruzam-se os dados de luz com os materiais e o estado de conservação de cada peça. Os dados temporais mostram as tendências sazonais da luz natural ao longo do ano. Os dados espaciais mostram as zonas de risco e a relação entre cada objeto e o seu ambiente imediato. A classificação dos riscos por tipo, impacto potencial e reversibilidade ajuda a decidir que peças exigem condições mais restritivas.

    Definição: o que deve ficar escrito no plano?

    A luz aparece em duas componentes do plano:

    • Controlo ambiental e monitorização integrada: os parâmetros e limites de radiação visível e ultravioleta definidos para a instituição ou coleção, os equipamentos e a sua calibração, os protocolos e a frequência de monitorização e os cenários de resposta.
    • Manuseamento, acondicionamento, exposição e transporte, através de dois instrumentos:
    • um protocolo expositivo, incisivo sobre as condições ambientais a que as peças podem estar sujeitas em exposição. Inclui os procedimentos de de-reservar e re-reservar, as especificações de suportes e vitrinas, os materiais em contacto com a obra, a monitorização durante a exposição e a limpeza e manutenção durante esse período;
    • um eventual plano de rotação das obras em reserva ou entre a reserva e a exposição.

    A rotação é a resposta mais direta ao dilema entre mostrar e proteger. Permite que a coleção seja vista sem que as mesmas peças acumulem exposição contínua.

    Os limites concretos devem resultar da avaliação da coleção e ficar registados no plano. Não devem ser copiados de outro contexto, tal como acontece com a temperatura e a humidade relativa (veja como definir parâmetros para uma reserva).

    Aplicação: como controlar na prática?

    Os sistemas de monitorização atuais cobrem as radiações visível e UV, a par das variáveis termohigrométricas. Podem emitir alarmes quando as condições saem dos padrões definidos e ser integrados com os sistemas de iluminação. Os dados de exposição só são úteis se forem analisados: veja como transformar registos em decisões.

    A observação regular das peças completa os dados dos sensores. Sinais de alteração, como mudanças de cor, devem ser registados e mapeados.

    Revisão: quando ajustar?

    Sempre que a monitorização ou a observação mostrem alterações nas peças, quando muda a exposição ou a utilização de um espaço, e nos marcos definidos no plano. Os indicadores de desempenho, como o índice de deterioração dos acervos, ajudam a avaliar se a política de iluminação e de rotação está a funcionar.

    Que erros são frequentes?

    • Pensar só na montagem, esquecendo que o dano é cumulativo.
    • Tratar a luz natural como a elétrica, ignorando as suas variações diárias e sazonais.
    • Esquecer as componentes ultravioleta e infravermelha.
    • Não ter protocolo expositivo nem plano de rotação.
    • Medir sem registar a evolução das peças.
    • Fechar tudo na reserva, contrariando a função de fruição da coleção.

    Perguntas frequentes

    Qual é o nível de luz recomendado para uma exposição?

    Não existe um valor único a aplicar a todas as peças. Os limites devem ser definidos para a instituição ou coleção, em função da sensibilidade dos materiais e do estado de conservação, e registados no plano de controlo ambiental.

    O dano causado pela luz é cumulativo?

    Sim. A deterioração causada pelas componentes lumínicas acumula-se ao longo do tempo. Por isso, não conta apenas a intensidade: a duração e a frequência da exposição também pesam.

    A luz natural pode ser usada num museu?

    Pode, desde que seja monitorizada e controlada. É mais difícil de gerir do que a luz elétrica, porque varia ao longo do dia e do ano. Caixilharias adequadas, estores, persianas e sistemas domóticos facilitam esse controlo.

    Guardar as peças na reserva resolve o problema?

    Reduz a acumulação de dano, mas a coleção existe para ser vista. A solução está num protocolo expositivo e, quando necessário, num plano de rotação entre reserva e exposição.

    O que deve medir-se além da luz visível?

    A radiação ultravioleta e, no caso da luz solar, também a infravermelha. Na luz elétrica, controla-se ainda a capacidade calorífica das fontes.

    Por onde começar?

    Começa-se por perceber que peças são sensíveis, onde estão expostas e a que luz. O método LIDAR, desenvolvido no âmbito de um projeto de investigação do CIEBA (Universidade de Lisboa), integra a luz no controlo ambiental e no protocolo expositivo, da medição à revisão. Este guia explica como estruturar o plano completo. Para avaliar a iluminação de uma exposição ou coleção, contacte a Antever através de antever@antever.pt.