Em resumo: a conservação preventiva de arte contemporânea parte dos mesmos princípios que se aplicam a qualquer coleção. No entanto, enfrenta desafios próprios. Há obras pensadas para mudar ou desaparecer. Há materiais cujo comportamento ainda se desconhece. Além disso, muitas vezes é possível consultar o artista. Por isso, é preciso distinguir alteração de deterioração, classificar as obras pela sua materialidade e documentar intensivamente. O método LIDAR nasceu precisamente da investigação sobre este tema.
Porque é que a arte contemporânea é um caso à parte?
A arte contemporânea coloca desafios acrescidos pelas suas próprias características. A investigação que deu origem ao método LIDAR destaca quatro.
Efemeridade ou permanência?
Em primeiro lugar, há um paradoxo. Nem toda a arte contemporânea é efémera ou performativa. Ainda assim, muitas obras integram materiais que se alteram ou extinguem muito depressa. Por vezes, essa transitoriedade é a própria intenção do artista.
Ora, a missão do conservador preventivo é garantir a máxima longevidade dos bens culturais. Assim, surgem duas perguntas:
- até que ponto a alteração ou a deterioração fazem parte da obra?
- qual o papel do conservador perante uma obra pensada para se desmaterializar?
Neste contexto, o conservador preventivo não é apenas um técnico. Pode ser também um intérprete da intenção artística.
Que materiais são estes?
Em segundo lugar, a arte contemporânea rompe com a tradição dos tratados e das receitas. Integra elementos orgânicos, plásticos, equipamentos eletrónicos, dispositivos interativos ou instalações sensoriais. Muitos destes materiais são vulneráveis aos fatores ambientais. Além disso, desconhece-se ainda o seu comportamento a longo prazo.
O problema agrava-se com a falta de documentação técnica. Esta falta pode vir do artista ou dos fabricantes dos produtos.
Porque é que a instalação é um risco?
Em terceiro lugar, muitas obras exigem arranjos espaciais complexos. Outras permitem a interação com o público. Por isso, ficam especialmente vulneráveis na montagem e no contacto com os visitantes. Daí a necessidade de critérios próprios de instalação, que protejam a obra sem comprometer a experiência do espectador. O mesmo cuidado aplica-se quando a obra viaja. Veja como planear o empréstimo e transporte de obras.
Que papel tem o artista?
Por fim, existe muitas vezes a possibilidade de contactar o criador da obra. Esse acesso pode ser direto ou feito através de representantes ou herdeiros. Em qualquer caso, permite saber:
- que objetivos o artista tem para a obra;
- que elementos podem ser substituídos em caso de dano;
- que elementos devem permanecer originais;
- até que ponto a obra pode ser reconfigurada.
Deste modo, os planos podem ser mais específicos e flexíveis.
Alteração ou deterioração: qual é a diferença?
Esta distinção é central na conservação preventiva de arte contemporânea. Seguindo Natali (2008), a investigação define:
- Alteração: mudança na estrutura ou na aparência do material que não implica necessariamente perda de função, de estabilidade ou da intencionalidade da obra. Pode, caso a caso, fazer parte do conceito.
- Deterioração: perda de qualidades físicas, químicas ou estéticas, resultante de um processo indesejado. Compromete a leitura, a fruição e a estabilidade da obra.
Na prática, os critérios convencionais de integridade e aparência original nem sempre se aplicam. Por isso, o conservador tem de definir que característica quer evidenciar e sobre qual vai atuar.
Como classificar as obras de arte contemporânea?
Não há consenso académico sobre uma classificação. No entanto, uma classificação útil deve ser universal, objetiva e mutável. Com base em Natali (2008), acrescida da categoria de arte híbrida, propõem-se estratégias por tipologia:
- Arte conceptual: documentação multissistema, como fotografia, vídeo e transcrição das instruções.
- Arte cinética e videoarte: manutenção preventiva dos componentes, inspeções regulares e eventual migração para novos formatos.
- Arte efémera: controlo dos fatores de alteração, protocolos de montagem e desmontagem e documentação do “evento”.
- Arte computacional: emulação e migração de dados e preservação do código e da documentação técnica.
- Arte comestível: condições de armazenamento muito controladas contra a biodeterioração e documentação intensiva.
- Arte híbrida: avaliação caso a caso, combinando estratégias.
Além disso, esta classificação pode cruzar-se com outra, baseada nos materiais. Por exemplo, os materiais poliméricos podem amarelecer e degradar-se sob radiação UV. Veja como gerir a luz e a radiação UV em exposições.
O que fazer quando só resta a memória da obra?
Em muitos casos, a alteração e a destruição são a estratégia do artista. Nesses casos, o desafio é distinguir o que faz parte do propósito artístico. Depois, é preciso decidir em favor da memória do bem cultural.
A investigação cunhou uma expressão para isto: a “Síndrome de Casablanca”. Tal como no filme, em que resta “Paris” como memória, o conservador sabe que, por vezes, só lhe restará uma memória para conservar. Assim, cabe-lhe criar e manter o melhor registo possível da obra.
Por isso, a documentação de cada etapa da vida da obra ganha um peso especial. Por vezes, chega a substituir a preservação física.
Como aplicar o método LIDAR à arte contemporânea?
Levantamento
Recolhem-se os materiais, o estado de conservação e a documentação técnica disponível. Sempre que possível, inclui-se a intenção do artista.
Interpretação
Cruzam-se a classificação dos riscos e uma matriz de características e necessidades dos materiais. Deste modo, agrupam-se as obras com necessidades semelhantes. Também se identificam as que exigem microclimas. Veja como definir parâmetros ambientais para uma reserva.
Definição
Os protocolos de inspeção devem prever a consulta aos artistas, quando vivos, sobre as suas intenções de preservação. Os protocolos de montagem, desmontagem e acondicionamento ganham um peso especial. Os materiais usados junto das obras também devem ser definidos. Veja como definir materiais permitidos, proibidos e em observação.
Aplicação
A imprevisibilidade dos novos materiais exige monitorização contínua. Wharton (2018) aponta, por exemplo, protocolos de monitorização em tempo real para antecipar danos.
Revisão
Pela mesma razão, os protocolos precisam de atualização frequente. Assim, o plano integra as mudanças que possam comprometer a integridade das obras.
Que erros são frequentes?
- Tratar toda a alteração como deterioração.
- Ignorar a intenção do artista.
- Aplicar critérios convencionais de integridade sem os questionar.
- Não documentar obras efémeras, performativas ou tecnológicas.
- Recorrer sistematicamente ao restauro, com perda de originalidade.
- Usar desumidificadores sem critério, criando variações bruscas de humidade relativa.
Perguntas frequentes
A arte contemporânea precisa de um plano diferente?
Os princípios são os mesmos. No entanto, a conservação preventiva de arte contemporânea exige critérios próprios para a alteração, a intenção artística, os novos materiais e a documentação.
Qual é a diferença entre alteração e deterioração?
A alteração é uma mudança que não implica necessariamente perda de função ou de intencionalidade e pode fazer parte da obra. A deterioração é uma perda indesejada de qualidades que compromete a leitura e a estabilidade da obra.
Porque é importante falar com o artista?
Porque permite saber que elementos podem ser substituídos, quais devem permanecer originais e até onde a obra pode ser reconfigurada.
O que fazer com obras efémeras?
Perceber se a efemeridade é essencial ao conceito. Se for, o foco passa para a documentação do processo, mais do que para a preservação material.
O método LIDAR serve só para arte contemporânea?
Não. Nasceu da investigação sobre arte contemporânea, mas foi pensado para a generalidade dos bens culturais. Este guia explica como estruturar o plano completo.
Por onde começar?
Em suma, a conservação preventiva de arte contemporânea começa por conhecer as obras, os materiais e a intenção de quem as criou. O método LIDAR, desenvolvido no âmbito de um projeto de investigação do CIEBA (Universidade de Lisboa), oferece uma estrutura para o fazer. Para avaliar uma coleção de arte contemporânea, contacte a Antever através de antever@antever.pt.