Empréstimos e transporte de obras: como proteger as peças fora de casa

Em resumo: o empréstimo e transporte de obras é um dos momentos de maior risco na vida de uma peça. Fora da reserva, a peça perde as condições controladas a que está habituada. Por isso, a decisão de emprestar deve basear-se em critérios objetivos sobre o estado e as necessidades de conservação. Além disso, o plano de conservação preventiva deve incluir um protocolo de transporte e um protocolo de empréstimo e aquisição. Assim, a segurança da peça não fica entregue apenas à transportadora e ao seguro.

Porque é que o empréstimo e transporte de obras exige um plano?

Garantir a segurança das obras, sobretudo fora das condições controladas de uma reserva, deve ser um objetivo prioritário. No entanto, estes processos são muitas vezes desvalorizados. Há duas razões frequentes:

  • a opinião do conservador nem sempre tem peso suficiente, quando comparada com a das equipas de comissariado;
  • no transporte, assume-se que a empresa contratada “trata de tudo” e que o seguro cobre o resto.

Na prática, isto deixa por assegurar aspetos críticos da operação. Por isso, as práticas de empréstimo e transporte, e a sua fundamentação, devem estar dentro do plano.

Proteger custa mais?

Algumas normas de proteção podem implicar um investimento adicional. Ainda assim, esse custo será seguramente inferior ao de uma eventual intervenção curativa sobre a peça.

Que riscos corre uma peça em trânsito?

O principal risco é físico. No quadro de riscos de Robert Waller, as forças físicas incluem quedas e danos durante a manipulação ou a colocação das peças. Além disso, mudam as condições ambientais, a segurança e a informação associada à peça. Veja os 10 agentes de deterioração.

Há também um risco para os dados. Quando uma peça sai por empréstimo para outra instituição, a informação sobre as suas condições desatualiza-se. Por isso, é preciso atualizá-la constantemente.

Como decidir se uma peça pode ser emprestada?

Muitas vezes, as exposições temporárias e os empréstimos dependem de juízos pessoais. Raramente dependem de critérios objetivos sobre o estado e as necessidades de conservação das peças.

Uma matriz que mostre, de forma objetiva, o estado e as necessidades de conservação de cada bem ajuda a decidir. Além disso, permite racionalizar recursos humanos e financeiros.

Em geral, não é o conservador preventivo que tem a palavra final. Mesmo assim, deve existir um documento que defina os padrões e procedimentos a seguir. Deste modo, a decisão fica fundamentada.

Como planear o empréstimo e transporte de obras, passo a passo?

Levantamento: o que se sabe sobre a peça?

No empréstimo e transporte de obras, o primeiro passo é conhecer a peça: os materiais, o estado de conservação, as dimensões e o peso. Também é preciso conhecer os materiais em contacto com ela. Estes dados servem de referência para a inspeção à saída e à chegada.

Interpretação: a peça aguenta a viagem?

Em seguida, cruza-se o estado da peça com os riscos do percurso. A classificação dos riscos por tipo, impacto potencial e reversibilidade ajuda nesta análise. Deste modo, percebe-se que cuidados a peça exige ou se o empréstimo é desaconselhável.

Definição: o que devem conter os protocolos?

Protocolo de transporte

Deve focar:

  • os procedimentos detalhados para cada tipo de transporte (terrestre, marítimo ou aéreo) e os seus riscos;
  • o processo de embalagem e desembalagem, incluindo os materiais de proteção e amortecimento;
  • os critérios para a seleção da transportadora;
  • os tempos de aclimatação necessários;
  • os sistemas de monitorização a usar e a forma de utilizar os dados;
  • o eventual processo de escolta e segurança durante a deslocação.

Protocolo de empréstimo e aquisição

Pode cruzar-se com outros conteúdos do plano. No entanto, deve estar adaptado a esta situação específica. Assim, remete para:

  • os requisitos específicos de embalagem;
  • as condições de climatização, de aclimatação e de quarentena;
  • os procedimentos de inspeção à chegada e à saída;
  • os modelos de avaliação das necessidades de conservação.

Os materiais de embalagem seguem as regras gerais do plano. Veja como definir materiais permitidos, proibidos e em observação.

Procedimentos de manuseamento

Além disso, o plano deve prever as instruções de manuseamento por peça ou tipologia. Deve prever também os equipamentos a usar e os protocolos para mover peças de grande dimensão ou peso.

Aplicação: como acompanhar a operação?

No plano LIDAR, o transporte de uma obra é uma tarefa esporádica. Ou seja, não segue um padrão regular. Por isso, ter as tarefas definidas antecipadamente facilita a aplicação das medidas de preservação em empréstimos.

Durante a operação, há três cuidados centrais:

  • Aclimatação: a peça precisa de tempo para se adaptar quando sai da reserva e quando regressa. É o que se chama de-reservar e re-reservar.
  • Monitorização: os protocolos devem cobrir as condições de reserva, de exposição e de transporte. Veja como transformar registos em decisões.
  • Inspeção: a peça é examinada à saída e à chegada, com registo das observações.

Quando a peça é exposta noutro local, aplicam-se as mesmas preocupações com a luz. Veja como gerir a luz e a radiação UV em exposições.

Revisão: o que fazer quando a peça regressa?

A deslocação de objetos para uma exposição ou investigação é um dos acontecimentos que ativam a Revisão. Assim, no regresso, compara-se o estado da peça com o registo anterior. Depois, avalia-se se os protocolos funcionaram. Se for preciso, atualiza-se o plano.

Que erros são frequentes?

  • Decidir empréstimos sem critérios objetivos de estado e necessidades de conservação.
  • Confiar tudo à transportadora e ao seguro.
  • Ignorar os tempos de aclimatação.
  • Não inspecionar à saída e à chegada.
  • Não monitorizar durante o transporte.
  • Esquecer a quarentena de peças que entram.

Perguntas frequentes

Quem decide se uma obra pode ser emprestada?

Em geral, a decisão final não cabe ao conservador preventivo. No entanto, um documento com padrões e procedimentos definidos permite fundamentar a decisão com base no estado e nas necessidades de conservação da peça.

O que deve conter um protocolo de transporte?

Procedimentos por tipo de transporte, embalagem e desembalagem, materiais de proteção, critérios de seleção da transportadora, tempos de aclimatação, monitorização e, se necessário, escolta e segurança.

O seguro não basta?

Não. Confiar no seguro não garante que os aspetos críticos da operação fiquem assegurados. Além disso, proteger a peça custa menos do que uma eventual intervenção curativa.

Porque é importante a aclimatação?

Porque a peça sai das condições da reserva para outro ambiente. Por isso, precisa de tempo para se adaptar, sobretudo no caso de materiais orgânicos ou sensíveis às variações higrométricas.

O que fazer quando a peça regressa?

Inspecioná-la, comparar o seu estado com o registo anterior e, se necessário, rever os protocolos do plano.

Por onde começar?

Em suma, o empréstimo e transporte de obras começa muito antes da embalagem. O método LIDAR, desenvolvido no âmbito de um projeto de investigação do CIEBA (Universidade de Lisboa), integra estes processos nos protocolos do plano. Este guia explica como estruturar o plano completo. Para preparar um empréstimo ou transporte de obras, contacte a Antever através de antever@antever.pt.