Em resumo: a proteção de uma coleção durante obras, mudanças de reserva ou reaberturas começa antes da primeira intervenção no edifício. Primeiro faz-se o levantamento do estado inicial das peças, do edifício e da forma como a coleção é gerida. Depois interpretam-se os riscos que a obra introduz em cada zona e escrevem-se os protocolos de acondicionamento, transporte, monitorização e emergência, com tarefas, prazos e responsáveis. Durante a obra, as condições são monitorizadas e controladas. No fim, faz-se uma revisão antes de as peças regressarem ao espaço. É a sequência do método LIDAR: Levantamento, Interpretação, Definição, Aplicação e Revisão.
Porque é que uma obra é um momento de risco para a coleção?
Em situação normal, as condições de um museu são relativamente conhecidas: onde estão as peças, como se comporta o edifício, que rotinas existem. Uma obra altera tudo isto ao mesmo tempo.
A grelha de agentes de deterioração do Canadian Conservation Institute, nos exemplos sistematizados por Robert Waller (1994), descreve bem estas situações:
- Forças físicas: quedas e danos durante a colocação das peças, deformação por suporte inadequado, vibração constante.
- Contaminantes: poeiras de obra, produtos de limpeza corrosivos, gases e vapores libertados pelos materiais de armazenamento.
- Água: fugas em coberturas e canalizações.
- Criminosos: roubo e vandalismo, isolados ou por parte de quem tem acesso frequente à coleção.
- Dissociação: perda de peças ou da informação que lhes está associada.
Numa mudança de reserva, a dissociação ganha um peso especial: uma peça que muda de lugar sem que o registo seja atualizado fica, na prática, perdida.
Porque é que a proteção deve começar antes da obra?
Porque não se improvisa no momento em que as peças começam a sair das salas. A proteção da coleção deve estar integrada no plano de conservação preventiva da instituição e não num documento à parte, feito à pressa. Este guia explica como fazer esse plano, passo a passo. A obra, a mudança ou a reabertura funcionam como um acontecimento que obriga a rever esse plano.
Há também uma razão prática. Equipamentos, materiais de acondicionamento e serviços de transporte dependem muitas vezes de pedidos, autorizações e cabimentação. Esses recursos têm de estar previstos no planeamento, e não pedidos na véspera.
Como proteger a coleção, passo a passo?
Levantamento: o que é preciso saber antes de a obra começar?
O ponto de partida é a definição de objetivos: o que a instituição pretende com a obra e que objetivos de conservação daí resultam para a coleção. Segue-se o planeamento dos recursos humanos, financeiros e técnicos. Depois recolhem-se dados sobre três frentes:
- Objetos: inventariação atualizada, localização, estado de conservação e microambiente, incluindo os materiais em contacto com cada peça.
- Edifício e ambiente: zonas abrangidas pela obra, canalizações, ventilação, ar condicionado, materiais de construção e isolamento, condições ambientais atuais.
- Gestão: quem decide, quem executa e que equipas externas vão intervir.
Este levantamento serve também de registo do estado inicial. Sem ele, torna-se muito difícil perceber, depois da obra, se alguma alteração numa peça teve origem na intervenção. Convém ouvir todos os que intervêm na vida dos bens, da direção às equipas técnicas e ao projetista.
Interpretação: que riscos a obra traz a cada parte da coleção?
Os dados do levantamento cruzam-se com o calendário e a geografia da obra. Os dados espaciais são aqui decisivos:
- o mapeamento das zonas de risco;
- a caracterização dos layouts;
- o trânsito previsto dos objetos;
- a interação de cada peça com o ambiente que a rodeia.
Cada risco pode ser classificado pelo tipo (raro, esporádico ou contínuo), pelo agente, pelo impacto potencial e pela reversibilidade do dano. Para decidir o que proteger primeiro, cruza-se a fragilidade de cada peça perante cada risco com a sua representatividade estética, histórica, cultural e económica. O resultado é uma síntese de prioridades, organizada por zona e por fase da obra: que peças ficam protegidas no lugar e quais mudam de espaço.
Definição: que protocolos devem estar escritos antes da obra?
Nesta fase passa-se das prioridades a procedimentos concretos, com cronograma, tarefas e responsáveis:
- Manuseamento: instruções por tipologia, equipamentos de proteção e protocolos de movimentação para peças de grande dimensão ou peso.
- Acondicionamento: materiais de embalagem, etiquetagem, mobiliário e movimentação em reserva, e condições específicas, como microclimas, para as peças mais sensíveis.
- Transporte: embalagem e desembalagem, materiais de proteção e amortecimento, critérios de seleção da transportadora, tempos de aclimatação e monitorização durante a deslocação.
- Materiais: lista de materiais permitidos, materiais proibidos e materiais em observação, a aplicar também aos que a obra vai introduzir, como novas vitrinas, mobiliário de reserva ou revestimentos.
- Monitorização: parâmetros e limites (temperatura, humidade relativa, luz e UV, qualidade do ar, vibrações), localização dos equipamentos e cenários de resposta.
- Emergência: cadeia de comando com substitutos para cada função, prioridades de salvaguarda, rotas de evacuação, espaços fora da área da coleção para receber peças e comunicação com os serviços de emergência.
- Formação: instruções claras para todos os que entram nos espaços, incluindo equipas externas.
As Medidas de Autoproteção do edifício são obrigatórias, mas centram-se no incêndio e na salvaguarda da vida humana. A salvaguarda dos bens culturais precisa de procedimentos próprios.
Aplicação: o que acompanhar enquanto a obra decorre?
Durante a obra, o trabalho assenta em duas ações complementares:
- Monitorização: observação contínua e sistemática, baseada em dados e não invasiva.
- Controlo: ação proativa e adaptável que corrige as condições quando os dados indicam um desvio.
Os sistemas com alarmes reduzem o tempo de deteção de situações anómalas. A inspeção regular das zonas mais críticas e das peças que permanecem no edifício faz parte do cronograma. Cada deslocação, ocorrência ou ajuste de parâmetros fica registado. Esse registo garante a rastreabilidade: saber, a cada momento, onde está cada peça, em que condições e quem lhe tocou.
Revisão: como preparar a reabertura ou o regresso às reservas?
O fim da obra não significa que as peças possam regressar de imediato. Na fase de Revisão:
- analisam-se os dados recolhidos durante a obra;
- compara-se o estado das peças com o registo inicial;
- identificam-se pontos críticos, incluindo equipamentos a substituir ou recalibrar;
- atualiza-se o plano de conservação preventiva para a nova realidade do edifício.
Os espaços renovados devem ser monitorizados antes de receber a coleção. O objetivo é perceber como se comportam e confirmar que mantêm as condições definidas. Num edifício histórico, a introdução de climatização merece ponderação, porque estes edifícios têm muitas vezes, pela sua inércia, um comportamento ambiental relativamente estável. No regresso, as peças passam por um período de aclimatação, ao sair da reserva para a exposição ou no percurso inverso. Se as condições do novo espaço impuserem pequenas adaptações, estas ficam registadas, com atenção redobrada aos riscos para os bens.
Que erros são frequentes?
- Tratar a coleção como um tema de última hora do projeto de obra.
- Mudar peças de lugar sem atualizar o registo de localização.
- Não registar o estado inicial das peças.
- Deixar materiais de obra, de vitrinas ou de mobiliário novo sem avaliação.
- Confiar apenas nas Medidas de Autoproteção para a salvaguarda da coleção.
- Reinstalar as peças sem verificar as condições do espaço renovado.
Perguntas frequentes
É melhor retirar a coleção do edifício durante a obra?
Não há uma resposta universal. A decisão resulta do levantamento e da interpretação dos riscos de cada zona e de cada fase da obra, cruzados com a fragilidade e a representatividade das peças. Algumas podem ficar protegidas no local, outras precisam de ser deslocadas.
Uma mudança de reserva precisa de um plano próprio?
Precisa de protocolos próprios de manuseamento, acondicionamento e transporte, inseridos no plano de conservação preventiva da instituição. A mudança é também um acontecimento que obriga a rever esse plano.
Que cuidados exigem as vitrinas e o mobiliário novos?
Os materiais que entram em contacto com as peças ou partilham o mesmo espaço devem ser avaliados à luz da lista de materiais permitidos, proibidos e em observação definida no plano.
O plano de segurança do edifício cobre a coleção?
Não por completo. As Medidas de Autoproteção são obrigatórias e centram-se no incêndio e na vida humana. A salvaguarda dos bens culturais exige procedimentos próprios: prioridades, equipas designadas, rotas e espaços de acolhimento das peças.
Quando podem as peças regressar a um espaço renovado?
Quando a monitorização confirmar que o espaço mantém as condições definidas no plano e depois de um período de aclimatação das peças.
Por onde começar?
Quanto mais cedo a coleção entrar no planeamento de uma obra, uma mudança de reserva ou uma reabertura, mais simples e menos arriscado é o processo. O método LIDAR, desenvolvido no âmbito de um projeto de investigação do CIEBA (Universidade de Lisboa), estrutura esse trabalho do levantamento à revisão. Para preparar uma intervenção, contacte a Antever através de antever@antever.pt.