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  • Pragas em museus e arquivos: como prevenir, detetar e responder

    Em resumo: as pragas são um dos agentes de deterioração dos bens culturais. Afetam sobretudo os materiais orgânicos, como papel, madeira, fibras e tecidos. A limpeza ajuda, mas não chega. A prevenção depende também da manutenção do edifício, de sistemas que reduzam o contacto com o exterior, de controlo climático e de uma monitorização constante dos sinais de presença. No plano de conservação preventiva, isto traduz-se num cronograma de manutenção, em protocolos de inspeção e de limpeza, em procedimentos de quarentena para peças que entram e em respostas definidas para quando se deteta um problema.

    Porque é que as pragas são um risco para coleções?

    Na lista de agentes de deterioração caracterizada pelo Canadian Conservation Institute (CCI), as pragas são um dos dez agentes. No quadro de riscos de Robert Waller, o exemplo associado é a infestação. Veja os 10 agentes de deterioração e como identificar os riscos de uma coleção.

    O risco é maior nos materiais orgânicos: fibras, tecidos, papel, madeira e até alimentos, no caso de algumas obras contemporâneas. Estes materiais estão sujeitos a ataques biológicos, de fungos e insetos, e a processos de biodeterioração. As estratégias de preservação mais comuns para este grupo são o controlo climático e a proteção física. Por isso, é um agente central em arquivos, bibliotecas e coleções com forte componente orgânica.

    Os fungos são uma praga?

    No quadro de riscos de Waller, o aparecimento de fungos surge associado a outro agente, a humidade relativa incorreta: o exemplo dado é uma humidade suficientemente alta para desencadear fungos. Os dois riscos devem ser lidos em conjunto, até porque o controlo climático é uma das estratégias mais comuns para proteger os materiais orgânicos. Veja como pensar os parâmetros de temperatura e humidade relativa de uma reserva.

    A limpeza não é suficiente?

    Não. As condições de higienização podem influenciar o aparecimento de alguns tipos de pragas, mas a abordagem é mais complexa. Assenta em várias frentes:

    • manutenção do edifício;
    • sistemas adequados de evacuação que reduzam o contacto com o exterior;
    • controlo climático, sobretudo nos materiais orgânicos;
    • monitorização constante, com especial atenção aos sinais que denotam a presença de pragas.

    A própria limpeza deve ser planeada. Os métodos, materiais e produtos apropriados para cada tipo de peça devem estar definidos no plano. Uma limpeza mal executada pode tornar-se, ela própria, um risco significativo, sobretudo quando é feita por terceiros.

    Como integrar as pragas no plano, passo a passo?

    Levantamento: onde estão as vulnerabilidades?

    O levantamento identifica as peças e materiais mais suscetíveis e o seu estado de conservação, incluindo sinais anteriores de ataque. Inclui também o edifício: estado das coberturas, canalizações e esgotos e a sua localização, vãos, pontos de entrada e ligação ao exterior. Os materiais em contacto com as peças, em reserva ou em exposição, também contam, bem como as condições termohigrométricas. O histórico de intervenções anteriores ajuda a perceber se o problema é recorrente.

    Interpretação: que zonas e peças estão em risco?

    Os dados espaciais permitem mapear zonas de risco. Os dados temporais permitem identificar tendências sazonais. Os dados qualitativos registam as alterações do estado de conservação. Cruzando os três, percebe-se onde convergem materiais suscetíveis, condições ambientais desfavoráveis e falhas do edifício. A classificação de cada risco por tipo, impacto potencial e reversibilidade ajuda a definir prioridades.

    Definição: o que deve ficar escrito no plano?

    As pragas atravessam várias componentes do plano:

    • Manutenção regular:
    • um cronograma de manutenção com momentos próprios para inspeções e intervenções. Pode ir da observação diária ou semanal dos pontos mais críticos às necessidades sazonais e a situações pontuais;
    • protocolos de inspeção, com os procedimentos de exame de cada tipologia de peças, um sistema de classificação comum para toda a coleção e as medidas a tomar quando se encontra uma situação anómala;
    • um protocolo de limpeza e manutenção, com métodos, materiais, produtos e técnicas adequados.
    • Controlo ambiental e monitorização integrada: parâmetros, equipamentos, protocolos de monitorização e cenários de resposta.
    • Empréstimo e aquisição: requisitos de quarentena e procedimentos de inspeção à chegada e à saída. É a forma de evitar que uma peça infestada contamine a coleção.
    • Formação e sensibilização: equipas capazes de identificar riscos e os seus efeitos e de desencadear as intervenções necessárias.

    A manutenção do edifício tem também tarefas sazonais. Um exemplo é a limpeza de caleiras e algerozes no início do outono.

    Aplicação: como detetar a tempo?

    A deteção depende da regularidade. A observação sistemática das peças e dos espaços, segundo o cronograma, é a principal ferramenta. Os sinais encontrados devem ser registados de forma identificável e mapeados, para que possam ser analisados e comparados ao longo do tempo. A monitorização ambiental complementa a inspeção, permitindo reagir quando as condições se afastam dos limites definidos. Veja como transformar registos de monitorização em decisões.

    Quando se deteta uma infestação ou dano biológico, o papel da conservação preventiva é identificar a necessidade de intervenção e encaminhá-la para os profissionais competentes. O tratamento de peças afetadas é matéria de conservação curativa.

    Revisão: o que aprender com cada ocorrência?

    Uma infestação é um acontecimento que obriga a repensar a estratégia e ativa a Revisão. Analisa-se a origem do problema e avalia-se se os protocolos de inspeção e limpeza foram eficazes. Procuram-se vulnerabilidades no edifício ou nos procedimentos que não tinham sido consideradas, e atualiza-se o plano. Obras e mudanças de reserva também justificam atenção redobrada (veja como proteger uma coleção durante obras).

    Que erros são frequentes?

    • Confiar só na limpeza, sem manutenção do edifício nem monitorização.
    • Inspecionar sem cronograma nem critérios comuns de classificação.
    • Aceitar peças sem quarentena nem inspeção à chegada.
    • Não registar os sinais encontrados, perdendo a capacidade de comparar ao longo do tempo.
    • Separar pragas e clima, ignorando a relação com a humidade relativa.
    • Usar produtos de limpeza sem critério, criando novos riscos.

    Perguntas frequentes

    Que materiais são mais vulneráveis às pragas?

    Os materiais orgânicos, como fibras, tecidos, papel e madeira. Estão sujeitos a ataques de fungos e insetos e a processos de biodeterioração.

    Como se previnem pragas num museu ou arquivo?

    Com manutenção do edifício, sistemas que reduzam o contacto com o exterior, controlo climático, higienização planeada e monitorização constante dos sinais de presença, tudo integrado num cronograma de manutenção.

    Porque é importante a quarentena?

    Porque uma peça que entra, por empréstimo ou aquisição, pode trazer pragas. O plano deve prever quarentena e inspeção à chegada e à saída.

    Com que frequência se deve inspecionar a coleção?

    A periodicidade é definida no cronograma de manutenção. Pode ir da observação diária ou semanal dos pontos críticos a inspeções sazonais, consoante as peças e os espaços.

    O que fazer quando se encontra uma praga?

    Seguir as medidas previstas no protocolo de inspeção e registar a ocorrência. O tratamento das peças afetadas deve ser encaminhado para conservadores-restauradores, e o plano deve ser revisto para identificar a origem do problema.

    Por onde começar?

    Começa-se por saber que peças são suscetíveis, onde estão e que vulnerabilidades tem o edifício. O método LIDAR, desenvolvido no âmbito de um projeto de investigação do CIEBA (Universidade de Lisboa), integra a prevenção de pragas na manutenção regular, no controlo ambiental e na revisão do plano. Este guia explica como estruturar o plano completo. Para avaliar o risco de pragas de uma coleção, contacte a Antever através de antever@antever.pt.